sexta-feira, novembro 26, 2004

Morram

Morram, morram todos! Os poetas e os loucos, os doutores e os amantes!
Morram, morram todos! Os amores desavindos em ocasos delirantes e noites tenebrosas.
Morram os poemas e as prosas!
Morram as minhas ideias cintilantes, de miúda pequena e teimosa.
Morram as vossas hipóteses, refuto tais teorias.

segunda-feira, novembro 22, 2004

Sem Propósito

Vi-o escrito em letras minúsculas e maiúsculas. Pareceu-me uma fraude.
Nada é meu. É tudo do mundo.
Sinto-me alugada por sentimentos que não pedi.
Os dias voltam a parecer mornos quando o frio se instala. Tudo me parece possível na impossibilidade do meu sentir.
Vi-o escrito em letras minúsculas e maiúsculas. Repetidamente… sem propósito.
Vivo o que sonho, sonho o que vivo.
Esse já nem é o meu rio…
Juro que não queria voltar aqui.

sexta-feira, novembro 19, 2004

Em Casa

Cheguei a casa arrastando os pés. O coração, trago-o escondido numa caixinha que já desisti de abrir.
Sento-me quieta tentando decifrar o cheiro do meu quarto. Nada disto me parece familiar… nada disto é meu.
Há vozes e músicas que teimosamente insistem em perseguir-me.
Há palavras que ecoam e corrompem os meus pensamentos.
Há cores que me cegam.
Há vozes e vozes e vozes e vozes e vozes que se dirigem a mim atabalhoadas sem nunca me dizerem nada.
Há paredes que parecem querer-me tocar.
Há espíritos que riem e troçam, há vozes que gritam aflitas e me desesperam.
Há pássaros que rugem famintos e formigas que gemem no cio.
Em casa sou perseguida. Não encontro o meu descanso.

Tenho um mundo doente dentro da cabeça

sábado, novembro 13, 2004

O Reflexo do Fogo




Entraram lado a lado. Uma estranha harmonia na forma do vestir, de se moverem.
Ele era alto e de cabelos espectacularmente ruivos. A barba, mais laranja que os próprios cabelos, gritava histérica numa pele muito branca. O olhar era sereno, umas vezes, outras aceso de vida, ideias e cores. A rapariga que o acompanhava, suponho que a namorada, trazia as ondas dos cabelos tingidas de vermelho.
Talvez o casal bonito que alguma vez comigo se cruzou. No mínimo, o mais colorido.
A namorada tinha olhos de menina e lábios finos. Viajava junto à janela. Depressa a apaguei dali. Agora, seria só eu e o rapaz ruivo da camisola escura que emanava um suave perfume a frutos silvestres.
Na tua mão, um livro de fotografia. Páginas e páginas de fotografias cinzentas, umas, outras tão vivas como os teus cabelos descontraidamente coloridos, num fim de tarde desbotado. Tive vontade de desfolhá-lo contigo. Ouvir as tuas explicações articuladas num tom de voz ameno, sereníssimo. Atentar nas palavras perfeitamente delineadas nos teus lábios.
Por momentos revi rostos passados. De onde conheceria um rapaz de pele de cera e cabelos de fogo?
Perdi-me nos teus gestos, desenhados por mãos perfeitas, mãos seguras de dedos longos. Eram quentes pude senti-lo. Tão quentes como o pálido pedaço de pescoço despido... tão perto de mim.
Tens um ar frágil... não o és, pois não? Um menino de cera e olhos verdes...
Foi-me tão fácil despir-te. Não temos pressa, o nosso destino ainda não se avista...
Tive-te com calma. Tímido e vagaroso, no recato da minha imaginação. Fiz meu um corpo de mármore, que se consumiu de deleite a cada toque meu.
Pertenceste-me... mesmo sentado ao lado da menina dos cabelos vermelhos.
Não decorei o gosto do teu beijo, só reflexo do fogo que escondes no teu ar tão delicado.

sábado, novembro 06, 2004




O primeiro impulso é sempre mais justo
É mais verdadeiro
E o primeiro susto
Dá voltas e voltas
Na volta redonda de um beijo profundo

André Sardet, Feitiço


O Anjo




A mulher era magra, não muito alta, loira e de cabelos desgrenhados e a pele sordidamente branca. Pelas costas, pescoço e coxas adivinhavam-se as marcas daquela noite e muitas outras repetidas na mesma cama. O homem, moreno de olhos miúdos, mãos esguias e pernas escanzeladas, usava óculos muito graduados. A sua pele era como a de todos os homens: nua, fétida, viscosa e fria.
Iluminava-os um abat-jour de gosto questionável e luz mortiça. A cama, de lençóis riscados, era de madeira escura e o desenho da cabeceira estranhamente comum. Velha, recuperada da casa dos avós. Possivelmente o exacto leito onde foram concebidos os próprios pais.
A cama rangia numa cadência ritmada, umas vezes frenética, outras quase quieta.
Entrou de rompante no quarto, nem precisou de forçar a porta. Trazia consigo a macabra arma desse hediondo crime. Deu o primeiro passo em direcção aos dois amantes. Permaneciam na mesma posição. O corpo estreito e pálido da mulher continuava cavalgante o seu companheiro. Até que dessem pela presença, foi apenas o instante em que o homem contorceu-se em estranha convulsão, virou o rosto para o lado e vislumbrou-a… de branco e sem rosto. A inveja, o ódio, a morte… o que fosse.
Paralisada e em choque, a mulher esconde-se, nua, no lençol que pendia para o chão. O seu companheiro, precipitando-se para a inesperada visita, gela de horror ao aperceber-se que o corpo feminino, imóvel na sua frente, não tinha cara. No entanto, adivinhava-se uma mulher, bela. Sim, não, talvez. Uma mulher sem rosto, sem feições, quem sabe até sem sentimento, coração.
O branco vulto trazia consigo a luminosa arma com que se estropiam os torpes apaixonados.
Num só golpe degola ambos amantes. Os gritos ecoaram cem vezes. E a pobre criança que escondia os ouvidos dos lascivos gemidos dos pais, desapareceu com um branco anjo de olhos claros e cândido semblante.

sexta-feira, novembro 05, 2004

Perdoar-me

Relembro Vinicius de Moraes… Sim, julgo que era Vinicius de Moraes.
Um soneto que por demasiadas vezes fez sentido… todo o sentido.
Relembro e sorrio… relembro e rio… Relembro e deixo escapar uma gargalhada que, dentro coração, corrói cada pedaço da minha garganta. Hoje volta a fazer sentido.
Cada vez que busco uma saída, uma alternativa, perco-me em sentimentos mal paridos, revirados, revoltados.
Estranhamente é tudo tão claro como no início. Estranhamente o disfarce colou-se como uma segunda pele. Vesti-a sem me arrepender. Sou-a todos os dias. Estranhamente esta sou mesmo eu.
Resta encontrar uma desculpa para não me encarar. Uma desculpa para me desculpar, um motivo para me perdoar…

“De repente, não mais do que de repente…”

Eu Também




Esta noite sonhei. Apenas mais um daqueles sonhos absurdos e vagos que agora tento dissecar em busca de um significado oculto, uma mensagem do Além, qualquer manifestação paranormal.
No meio da noite, numa rua triste e escura, debaixo da luz deprimida de um candeeiro; encontrei alguém. Não era homem nem rapaz, qualquer coisa que se situasse entre os dois, se é que existe algo que os distinga. Esperou que me aproximasse, esperei que a claridade doente lhe desvendasse o rosto. Era-me familiar.
Situei-me estrategicamente sob o cone de luz. Ele aproximou-se ainda mais e, com a voz trémula, proferiu em tom desesperado: “O meu gato morreu!” - Senti a tua própria dor. Acho que até chorei contigo.
Não sei quem és, meu amigo... É isso, serias talvez meu amigo. Não sei como descobriste que iria passar debaixo do tal candeeiro, que nos meus sonhos frequento ruas escuras e abandonadas.
Naquele instante comunguei da tua dor. Não, não seria só um gato. Era o teu gato, não era? Quem sabe não terias mais ninguém no mundo e a sua partida te deixasse sozinho e desorientado. Seria, talvez por isso que te encontravas naquela rua. Talvez fosse esse o propósito de um lugar tão sombrio. Abrigar os desamparados.
Então porque senti eu algo de familiar na luz que nos descobria? Na escuridão que nos engolia? Serei… Serei… Serei igualmente desamparada? Desabrigada? Desavinda do dia e da claridade?
No coração, um aperto permanecia. Não pelo teu gato… era preto, não era? Agora recordo… Queria proferir uma palavra de alento, algo que te ajudasse.
O teu gato morreu… morreu… morreu… Sofres, e eu não sei como te acudir. Que dizer? Não digo nada, abraço-te apenas?
Abracei-te com a verdade dos amigos.

“Não faz mal… Eu também.”