domingo, outubro 31, 2004

Era a terceira vez que, sentada naquele pequeno muro de costas para o mar, trazia no peito uma sensação inebriante - Estar contigo.
Da primeira vez que ali me trouxeste, fitei o mar num misto de timidez e susto. Pensei que se me abraçasses tudo seria mais doce, o vento serenasse e, com ele, o bater descompassado do meu coração. Mas as ondas não abrandaram quando, subitamente, senti que existias, que eras quente. Um medo absurdo tomou-me de assalto. Receei tanto escuro, tanta noite, receei a força com que me apertavas, o teu imprevisível calor. A tua quase calma contrastava com o meu quase pânico. Prometi-me que nunca mais me tocarias. Rezei por luzes, gente e ajuda. Estranhamente o primeiro Adeus! que te disse soube-me a Até Breve! e, dos teus olhos inesperadamente azuis, desvendei um Até Logo!
Da noite seguinte não vou evocar o pretexto que nos fez lá voltar. O muro, esse, seria certamente o mesmo. Também não consigo relembrar as palavras que trocámos, apenas a repentina vontade de sentir… de te sentir quente a envolver-me. Achei-me estupidamente nua à tua frente. Era só “eu” quem tinhas nos braços e, no entanto, não me deixavas cair, não deixavas de me ouvir. Pela despedida ficou a estranha amargura de sentir que te perdia ali… na pressa, na confusão, no indecifrável do futuro.
Porque me pediste desculpa? Que (nos) aconteceu que não lembro?...

... foi isso que me fez lá voltar… agora sozinha.

Desta vez, desço até à praia. O vento sopra gelado, mas calmo. Envolve-me a pele que me despes e beijas. E já quase despido, extasiado pelos meus suspiros disfarçados pela rebentação das ondas, levas-me a alma num beijo que se prolongou até cair desamparada na areia.
E, assim nua, volto a entregar-me sem que mesmo a Lua seja nossa testemunha.

sábado, outubro 30, 2004

Nem Lágrima



Recordo tudo o que já me ensinaram...
Ecoam na minha cabeça ideias caóticas... borboletas que batem suas asas e me provocam convulsões... o Sol, a claridade que me cega tanto quanto a escuridão.
Recordo tudo o que me ensinaste. Que o mundo é terrivelmente injusto, que a felicidade é um completo engano, que o céu é sempre cinzento. Que o rio corre vagaroso porque nos espera, que no escuro há fadas que te falam. Que a noite não é dos amantes, é dos miseráveis... Como tu.
Queria voltar atrás. No preciso instante em que percorremos a mesma rua em opostas direcções e nos cruzámos. Encontrar no burburinho de um passado moribundo a razão de ter sido actriz da sinopse daquela que poderia ter sido a minha própria vida.
Não és parte de mim, mas daquela que nunca existiu. O mais vil capricho de um espectro doente e desabrigado. És mentira, engano, pura falsidade minha. Não és lágrima, nem pena, ausência, saudade, nem dor.

Só (és) silêncio.

domingo, outubro 17, 2004

She will be loved II




Acordou ainda o sol não havia rompido pelo restos de nevoeiro da madrugada. Na cama, uma réstia de calor que fez derramar a primeira e última lágrima daquele dia que acabara de começar. Encostou a testa ao vidro, cerrou os olhos, e pediu com força para que não o visse assim que abrisse a janela.
Ao sair de casa, sentiu o frio dos vagabundos, dos miseráveis, dos sem-abrigo. Foi mendigar amor para a sua porta.

Que terá recebido?

sábado, outubro 16, 2004

She will be loved

Quando o céu parece incerto e o tempo corre lentamente, deixo-me levar por uma doce letargia. Aquela lembrança de dias idos em que me deixava ficar pela cama, aproveitando o teu calor. O calor que me é negado nas noites geladas de solidão.
Mágico capricho da Natureza, o meu corpo dói. Sinto-me frágil, dependente dos teus braços, do teu carinho… de ti. Seguras-me com cuidado, afagas-me o rosto e embalas-me no colo…a garota debilitada e inocente cujo corpo foi teu em incontrolada e empenhada volúpia.
Esperas que adormeça. Perguntas-te como este corpo tão fraco que descansa alimentado por ti, pode suportar tamanha dor… e adormecer a sorrir.

Impasse




Esta noite acordei contigo a velar o meu sono, a tua terna carícia num beijo que se prolongou até ao acordar... Envolvida pelo teu corpo, num cálido e eterno enleio. Os teus dedos vagueavam pelos meus cabelos e a tua respiração seguia a cadência da minha.
Acordo angustiada e só. Não estavas lá... nem nunca estiveste.
A saudade mortifica-me.
Tenho vontade de adormecer e sonhar. Desvendar o teu cheiro, o sussurrar adocicado da tua voz.
Espero pacientemente pelo teu primeiro sinal. Vais demorar até acordar. Quem sabe não esteja próximo o dia que despertes junto a mim...

sábado, outubro 09, 2004

Intempérie



Quando menos o esperava, o dia amanheceu. Desta vez quem batia insistentemente na janela não eras tu nem a tua lembrança, eram o vento e a chuva furiosos comigo. Fizeram-se anunciar sem que eu notasse, envolvida que estava pelos braços que desejo mas desconheço. E, sem a minha atenção e por minha culpa, surgiu a tempestade.
- Querias-nos? Hei-nos aqui.
E agora encontro as árvores derrubadas, os ribeiros trasbordantes, os passeios alagados. Tudo por minha culpa... que não evitei o temporal...

...quando te tinha.

sexta-feira, outubro 01, 2004

Monólogo


— Nada, ora…
— Nada mesmo? E aquela noite? Lembras? Recordas o teu estado? Recordas tudo o que te prometeste?... A essa música que ainda hoje não toleras ouvir?
— Foi só essa noite… Estava transtornada, tu sabe-lo! Eu perdoei-me. Não é nada, juro!
— Creio que mentes… Que te aconteceu? Já nem tens aqueles sonhos… Estás nervosa, é isso? É tudo ansiedade, não é?
— Pára! Que me queres, afinal? Não vês que me pressionas? Que intenção é essa, a tua?
— Hei! Só queria que compreendesses que não estás a ser coerente! Não sentes que estás a correr descalça e de olhos vendados? Achas que tudo isso faz sentido?...
— Deixa-me, Mafalda! Nunca te pedi nada, nem conselhos não os vou querer agora… Não sei se amanhã fará sentido, mas hoje faz. Todo!
— Eu só queria… Tu sabes o que (te) quero, Mafalda. Pobre de ti, és tão pequena…