quarta-feira, setembro 29, 2004

Chá para dois

Os meus dias têm acordado quentes... e as noites passadas em pensamentos abafados. Hoje o Sol rompeu pelas frestas da persiana, sem pudor ou permissão. Trazia um beijo que não deu, um abraço que perdeu pelo caminho e o mordiscar a orelha que me faz tremer, negou-o. Acordei com um falso sorriso, uma falsa esperança… a esperança de encontrar o calor de que fujo, mas com que sonho. E quando o enfrentei, o Sol deixou de ser meu para ser de todos.
O dia passa lento e asfixiante. O rio corre preguiçoso e as aves refrescam-se. O fumo intoxica-me as ideias.
Tinha intenção de te levar para uma dessas praias fluviais onde os putos nadam nus, mas a tua noite correu ligeira e o teu dia veloz. Desencontrámo-nos no tempo… já que no espaço tal é irremediavelmente inevitável.
De noitinha, enquanto me redimo de uma leitura abandonada, vi-te espreitar, curioso e disfarçado, a minha janela. Corei de vergonha e quando te pedi que entrasses, vi-te fugir rindo dessa tua maneira… de miúdo traquina, mas cheio de vergonha pelo que fez.

sábado, setembro 25, 2004

Ela, a Noite


Esta noite dormi com ela... a Noite, a própria. Entrou ligeira e por lá ficou, fria e parada. E senti todo o seu peso em cima de um coração fraco e doente.
Vi-a prostituir-se em mil ruas diferentes, de diferentes nomes e diferentes perfumes, mas em todas elas a mesma, a Noite.
Falámos das nossas vidas, da sorte e da falta dela. Quase nos vimos adormecer.
O seu beijo levou-me parte da alma, uma brisa que me gelou o coração. Deixou-me fria e estanque naquele mesmo lugar.
E a Noite ainda me vela o sono... ainda me persegue mesmo nos dias mais claros. Entrou e ficou para sempre.

Paciência ou Ciência da Paz

Escalei desnorteada as escadas do prédio atropelando as tuas plantas, o caniche do 2º esquerdo e o vendedor da TvCabo que põem os miolos da vizinhança em água. Até as compras dos vizinhos tarados do 4º andar ficaram espalhadas no chão. Nervosa, não encontrava a chave da porta e gritei dois ou três palavrões que ecoaram no interior do prédio. A discussão foi feia, horrenda, monstra. Não houve copo ou prato que aguardasse ser lavado que não tenha acabado em mil pedaços pelo chão. Do armário voaram as tuas camisas, todos os jeans e ainda aquele gorro patético verde de pêlo de ovelha (porque insistes no pêlo e não dizes logo lã?) que tanto estimas. As palavras saíram atabalhoadas num tom magoado que só tanta raiva soube disfarçar. De ti só ouvi o “mas, mas…” do costume. De ti só lembro o olhar brilhante e parado de miúdo órfão, carente e amoroso. Sei que entraste no elevador e a D. Orlanda abanou a cabaça três vezes encolhendo os ombros. Sorriste, envergonhado, e balbuciaste “ela é mesmo assim”. Ainda olhaste para a porta fechada aguardando alguma reacção do lado de lá.
À hora de jantar ligaste:
- E agora, já posso voltar?
- Eu, eu… Levas-me à praia?

domingo, setembro 19, 2004

O (des)engano




Nos dias em que o sol atravessa preguiçoso o firmamento e a claridade amena da tarde embala-nos num cálido enleio, prenúncio de um terno abraço ou de um novo amor; viajo de olhos postos no céu. A mala não a trago e o mapa esqueci-o. Comigo apenas tenho um pedaço vazio do meu coração onde acredito caber todo o horizonte.
O cheiro da terra antecipa a nostalgia de quem vai partir. Falta pouco para enterrar os enigmas debaixo destas árvores e lá deixá-los decompor pelas próximas chuvas.
Parto de coração vazio, cheio de nada, repleto dessa disponibilidade e entrega que para sempre (me) vou omitir. Pesam-me os olhos, a alma e o coração.
Não vou procurar o que já descobri. Vou continuar a esconder-me atrás de todas as máscaras que inventei. Vou deixar que me olhes bem fundo nos olhos e neles leias tudo o que a minha boca te nega.

Diz-me... Porque me tens procurado nos meus sonhos?...

sábado, setembro 11, 2004

Até...

Os dias não passam lentos, nem lento passa o meu tempo. As ideias recalcam-se, atropelam-se… visitam-me, alucinadas, em vagas que me deixam prostrada perante recordações regurgitadas de um passado imundo que já não tomo como o meu.
Enquanto assim for, enquanto fantasmas vagabundos, miseráveis (des) existências derem à tona, deixo suspenso este caderno.
Vou fazer o que me propus no início deste mesmo blog. Purgar-me.

Melhores dias virão.

Mafalda

quarta-feira, setembro 01, 2004

Bom Dia Alegria

Acordou-me um aroma amargo, forte, viril. Rebolo até à outra ponta e apenas descubro um pedaço de cama gelada. Imaginava que tivesses abalado pelo clarear do dia, recuperando apenas a tua roupa que conspurcámos de tabaco e whisky.
Chamo o teu nome de cara enterrada no travesseiro… não imaginava que fosses ouvir. Respondes da porta.
“Bom dia, fiz café!”
Abandono a cama, trôpega, segurando-me às paredes e fitando a casa de banho como destino urgente. O estômago contrai-se num espasmo, numa onda peristáltica invertida e incontrolável.
Arrasto-me até ao duche e 10 minutos depois, hei-me na cozinha recuperando alguma esperança na vida.
Sorris tentando disfarçar uma trocista e sonora gargalhada.
O gel de banho, o shampoo e o aroma forte do café, fazem daquela miscelânea o mais incómodo dos bouquets.
Esboças um ar irónico:
“Estás com um ar óptimo! Queres café?”
Rimos.