sexta-feira, julho 30, 2004

Neblina




Adormeci embalada pelo sopro delicado e ameno da madrugada e ao acordar senti o aroma fresco dos lençóis estreados. Já não é a primeira vez que acordo e estranho a tua ausência.
Escorracei-te da minha cama e da minha vida com o capricho da criança que se enfada do brinquedo. Nauseei-me de ti, do teu cheiro que conspurcava a minha roupa, a minha pele, a minha vida.
Espremo uma toranja e bebo o seu sumo de um só trago. Ainda não há ninguém na rua.
Pego na trela e chamo o cão que entra no elevador a bocejar.
A dois passos, o oceano. Ou pelo menos a rebentação violenta das ondas porque o mar, esse, parece timidamente escondido atrás de uma cortina espessa de neblina. Aqui e além, há gaivotas que passam silenciosas umas, outras dando os bons dias à praia.
O sopro húmido deixa gotas minúsculas na minha face. Pequenas lágrimas. A imensa satisfação de estar viva.
Lá ao fundo, um pescador encontra aquilo que parece ser um cadáver. Junta-se uma pequena multidão. As mulheres gritam de pânico.

Para mim, eras tu...

terça-feira, julho 27, 2004

Rigor Mortis




Vou fingir que é Janeiro, princípios de. O céu está carregado de nuvens e o vento gelado deixa-me os lábios secos.
Saio de casa com o cabelo molhado pairando numa suave fragrância de shampoo e eau de toilette.
São 7 da manhã e há geada no passeio.
Saltito entre as pequenas poças de água equilibrando-me nuns espectaculares stilettos forrados a cetim negro.
Pequeno-almoço rápido durante a viagem. O tempo escasseia.
Paragem relâmpago numa florista: lírios brancos ou rosas vermelhas? Rosas vermelhas, vermelhíssimas. Cor de paixão… sangue não arterializado… Enfarte agudo do miocárdio, edema agudo do pulmão, AVC isquémico, hemorrágico, necrose hepática… overdose de comprimidos coloridos.
À chegada, ar consternado e óculos escuros. Écharpe numa mão, flores na outra. Ar combalido e sério, muito sério.
Como eras jovem, saudoso defunto.
Rezado o Pai-Nosso, sentimentos expressos à família, abraço dado à chorosa mãe… agora aguardo o momento por que tanto esperei durante tua a vida.

É a verdade que queres?...

O céu como testemunha



Se amanhã chover... promete que me encontras...

segunda-feira, julho 26, 2004

Meia luz e chá de jasmim




Meia luz e chá de jasmim num quarto abafado de paredes forradas de seda envelhecida cor de cereja. Anjos barrocos dourados, velas de igreja derretendo pelo mesmo chão que range aos teus passos.
Na escuridão de qualquer um dos cantos há fantasmas que nos invejam a juventude, a volúpia dos beijos, a sofreguidão com que nos entregamos numa sedução tão inocente como incestuosa.
Tentação.
Deixaste-me entrar na tua vida enrolada em velhos lençóis de linho gastos pelos mesmos espectros que nos vigiam indiscretamente.
Nada. Nem os móveis velhos, a seda que se descola das paredes centenárias, o odor forte a incenso que inebria os sentidos, impede que te encontre puro, intacto quase inatingível.
Queria poder sugar-te a alma em beijos vorazes. Salpicar o linho imaculado com o rubro do teu sangue. Beber de ti... comungar-te. Contemplar essa noite sem Lua desta janela que se rasga para o mundo.


(mais um texto do baú das memórias remotas)

sábado, julho 24, 2004

Fragmento




Vou guardar dentro de um livro que tenciono não mais voltar a ler as migalhas que sobraram desse turbilhão que me devastou. Desculpa acordar-te, impedir-te de viveres a tua vida, aquela de desconheço e não controlo, com os meus insanos fragmentos de medo. O pânico de me aperceber quão longe estás. Sabes aquele aperto agudo e lacerante do grito que tentas abafar? Do choro que tentas conter?
Lembras-te de ontem quando confessei que, onde quer que vá, vejo sempre duas Luas? Duas Luas prateadas, frias e austeras que vigiam e reprovam o que faço. Não sabes, não estavas lá, não eras tu.
Viste ontem a Lua? Sentiste o mesmo frio solitário que eu? Foi medo que tivemos em enfrentar o desconhecido, a angústia de não nos termos ou o ímpeto de entregar o coração a quem não o estilhace?
Diz que compreendes embora te fira, que a minha ausência é dor calada, que te escondes em mim.
Diz-me a verdade e sorri escondido do mundo... só para mim.


(texto reciclado de memórias antigas)

quarta-feira, julho 21, 2004

Laranja seca, limão azedo

Viajei por estradas velhas debaixo de um sol que torrava as ideias. O caminho era meu conhecido. De antigamente, sim, mas conhecido. Não fiz por esquecê-lo porque não creio que devesse. Inventar amnésias selectivas e caprichosas não é certo. Apenas não me martirizo.
Não valeste os quilómetros que fiz por ti, nem as promessas lamechas que, por manha, te dediquei.
Não sinto saudade nem nostalgia. Nem de ti ou do teu olhar miserável, nem a tua pele viscosa ou saliva pestilenta.
Nauseei-me para sempre do teu cheiro podre de homem que se entranhou na minha cama, no meu quarto, no meu corpo. Esfreguei-me até sentir que já nem o meu sangue se lembrava da tua peçonha.
Agora acordo eufórica de energia. Matei-te do mesmo modo como se extermina um mosquito incómodo a meio da noite: com alívio, sem piedade. Mas, no caso de quereres reerguer-te da parede onde ficaste esmagado, aconselho-te a não te compadeceres da tua lástima.
 
Como preferes chamar-me? Laranja seca ou limão azedo?

quarta-feira, julho 14, 2004

Escarlate

Bafo quente e asfixiante de calor. Vagueio devagar na noite abafada, pausando debaixo de árvores que imagino existir.
Encontro fortuito, inesperado, inexplicável. Estavas lá, acidentalmente parado, quase que aguardando a minha passagem. A cada passo inebriado que dava, perseguias-me calado e quieto com os olhos. A blusa escarlate que trazia calava-te, amarrava-te e torturava-te em bofetadas e palavras cruéis.
'Maldita sejas'
Embriagado, maldisseste-me… a mim, à blusa, ao decote onde tanta vez passeaste essas mãos agora embrutecidas e sujas…onde mais vezes ainda sonhaste adormecer. Presságio, infortúnio, má sorte, desdita… o meu escarlate gritou-te estridentemente naquela noite, naquela rua onde agora passas cego, não vá a recordação enlouquecer-te.

Achas mesmo que não me queres?...

quinta-feira, julho 08, 2004

Rendez-vous

Acordo apressada. Salto da cama sobressaltada pelo adiantado da hora. Passo a correr pelo chuveiro. “Será que deva levar a túnica branca de linho? Com uma maquilhagem talvez me dê um ar mais credível…”
O médico era novo, muito novo até, pouco mais velho que eu. O cabelo era de um tom acobreado muito pouco comum (seria pintado?). Falava com sotaque nortenho que lhe dava um charme tão fresco como aquela cara de puto timidamente escondida na bata branca. Confessei a minha luxúria, os ataques vorazes ao frigorífico (tantas vezes responsáveis pelo meu equilíbrio emocional).
De quando em vez, arriscava fitar-me pelo canto do olho. Devia esforçar-se por manter aquele discurso aborrecido, aquele ar respeitável de “senhor doutor”. Se me cruzasse com tal figura na rua, julgaria, com grande certeza, que se tratava de um desses meninos ricos que desfilam os seus pólos e camisas de marca pelos bares da moda ou que engatam miúdas do secundário doidas para ostentarem um namorado beto e automobilizado.
Despedimo-nos formalmente com um aperto de mão e um olhar demorado.
“Até à próxima…”, disse.
“Podias ficar o resto da manhã… Agora só me restam senhoras menopáusicas pré-obesas…”, pensaste.
À saída do consultório a recepcionista abordou-me, sorridente. Confirmou a próxima consulta e confidenciou-me: “Ele gostou de ti!”

sexta-feira, julho 02, 2004

Lampejo Esquizofrénico




Procuras-me escondido nas esquinas onde sabes que nunca me encontrarás. A sombra é o abrigo que procuras. Inquieto, impaciente.
Camuflas-te no meio da multidão. Tentativa de ser igual a toda a gente.
Não vagueias na noite. Não esperas pelo escuro.
Gostava de olhar para trás e encontrar-te. Saber que persegues os meus passos.
Não há estrela que te guie. Nem o teu coração obstinado.
Adivinho os desastres escritos na tua mão.
Quero ouvi-lo de ti…
Não vais permitir que abrande esse coração embrutecido, então…
…larga-me!